segunda-feira, maio 01, 2006

Vanessa...


Dois anos de convívio...no trabalho e fora do trabalho...uma colega espectacular e uma amiga inesquecível.
28 anos, 2 filhos maravilhosos....fruto de um casamento de 9 anos.
O dia começava às 9h00m, entrava já a dançar, era incapaz de estar sentada 10m, o fax era o seu pretexto para se levantar e ir até ele a dançar e a cantar. Depois olhava-nos com aquele sorriso próprio, malicioso, a provocar em nós uma gargalhada.

Ainda em lembro quando me ligou, um dia, à meia-noite:
- Carla cortei o cabelo!!!
- Como é que cortaste o cabelo a esta hora??!!!
- Então? Cortei sozinha. Não sabias que eu cortava muito bem cabelos?!!
- Não sabia, está bem, amanhã vejo o belo serviço que fizeste!!
- Acredita que está muito giro! Bom, até amanhã, dorme bem.
- Vanessa....
- Sim?
- Vai dormir....e não faças asneiras
No dia seguinte, a Vanessa chegou um pouco mais tarde à empresa e notou-se logo, quando chegou, pois a Sandrinha abriu a porta e exclamou:- Vanessa pareces uma velha!!!Recordo-me que a Vanessa fez um escândalo desde a porta até à entrada da sala. Quando chegou olhou para mim e perguntou:
- Oh, Carla não estou gira?!!
- Vanessa não gosto. Cortaste demais.
Mas, penso que naquele dia, ela nem fez caso da minha resposta. Estava mais entusiasmada a discutir com a Sandrinha, que ficou com lágrimas no rostoA vida da Vanessa não era fácil. Há cerca de 3 anos conheceu um Homem. Esse Homem mudou completamente o rumo da sua vida. Apaixonou-se perdidamente por ele, pela inteligência dele... com ele, experimentou algo que nunca tinha experimentado, desde o sentimento de loucura por um Homem, até ter encontrado (dizia ela), o Homem da sua vida. Mas com ele viria a sua desgraça: a DROGA.
Quem a conhecia bem, diria que era mentira, a Vanessa jamais poderia drogar-se. Visivelmente aparentava ser uma pessoa “normal”, sem qualquer vícios... tirando o seu cigarrinho.
Passou longos meses no mundo da DROGA com o Homem da sua vida. Ela, uma “menina” criada nos melhores colégios, mãe de dois filhos maravilhosos e filha de pais de classe social alta, passou a frequentar os piores locais (Intendente, Casal Ventoso, etc…) fazendo deles o seu MUNDO.
Até que um dia decide contar à mãe que mal consegue acreditar. Fizeram as malas e a Vanessa partiu para África, para perto do pai, um politico bem conhecido. Infelizmente a mãe obrigou-a a não contar nada ao pai, aos olhos de quem a Vanessa passou por ter uma depressão para a qual necessitava de repouso. A maior revolta da Vanessa era isto, ter que esconder perante a sociedade o problema que tinha e principalmente perante o pai. Lutou sempre com a mãe, mas nada podia fazer, a mãe era a sua principal ajuda, e dos meninos.

-Vanessa porque é que não largas a droga???
- porque gosto, Carla. Para além de ser um vício, eu gosto!
Assim se justificava sempre.Passados uns meses regressou, visivelmente mais gorda, com um aspecto saudável.
Mas, no seu regresso, a sua maior preocupação não era de facto o seu aspecto, mas sim, o Homem da sua vida. Com as preocupações vieram recaídas atrás de recaídas.
O Homem da sua vida, que decidiu afastar-se, continuava no mundo da DROGA. A única preocupação dele era não se sentir responsabilizado pela Vanessa, passando a ligar-lhe apenas quando necessitava de algo (dinheiro).A Vanessa começou a perceber que amava um Homem perdidamente e que este apenas queria saber dela quando necessitava. Vanessa passou a ter 2 desgostos: a DROGA e o Homem da sua vida.

Voltou a deixar a DROGA, mas por breves momentos. Vieram recaídas e piores.
Lembro-me de a ver com vários hematomas, porque a Vanessa não sabia injectar-se. Era visível quando ela tinha uma recaída, era denunciada pelos seus próprios hematomas.
Quando isso acontecia, e as colegas lhe perguntavam o que tinha, ela apesar de tudo e com o sentido de humor que a caracterizava, arranjava sempre uma desculpa. Se fosse no pé, era porque o tinha torcido, se fosse no braço era porque tinha uma infecção muscular.
A última vez que fui com ela ao hospital, foi precisamente por um hematoma que tinha no braço. Eu nem queria acreditar no que estava a ver, a infecção era de tal maneira grave que o médico olhou para ela e perguntou:
- Tem filhos?!!Ela esboçou logo um sorriso, como fazia sempre que lhe perguntavam pelos filhos, e respondeu:- Sim, tenho 2 filhos maravilhosos.
- Então tem duas opções, ou fica internada para lhe podermos tratar da infecção, ou sujeita-se a dar só uma mão aos seus dois filhos.
O medo que a mãe descobrisse era tanto, que preferiu assinar o termo de responsabilidade e vir-se embora. Foi uma semana a correr com ela para o posto médico para lhe ser feito o penso.

16 ABRIL DE 2005… sexta feira
Vanessa foi ao cabeleireiro porque estava eufórica pois ia receber o pai que vinha passar o fim de semana com ela e os meninos. Nesse dia perguntou na empresa se devia alguma coisa a alguém, se tinha alguma coisa em casa de alguém e pediu os recibos dela.
Sábado liga-me o Homem da sua vida a contar que ligou para a Vanessa e que a mãe o atendeu e lhe disse:
- A minha filha morreu por sua culpa.

Ele pediu-me, para tentar saber o que se passava. Não deixando de me esquecer que antes de ele me ter ligado, tinha enviado uma mensagem para ela, a perguntar como se fazia arroz doce.
Tentei acalmá-lo, pois já era normal a mãe responder-lhe dessa forma. A mãe da Vanessa nem podia ouvir pronunciar o nome dele.
Tentei ligar várias vezes durante o fim-de-semana. Não consegui falar com ela nem com ninguém, mas como o pai cá estava, pensei que estaria com ele e não queria ser incomodada por ninguém e deixou os telemóveis em casa.

19 ABRIL


9h00... Chego à empresa. Estava tudo em alvoroço, por causa do boato do fim de semana, porque ninguém conseguiu falar com ela e ela ainda não tinha chegado.
Sentei-me à mesa, tentei ligar à mãe... nada... para casa... nada.De repente, toca o telefone, a Sandrinha atende. Do outro lado ouvimos uma voz trémula
- A minha filha morreu!

O maior choque da minha vida, Vanessa faleceu de 16 Abril 05 a 17 Abril de 05, ninguém sabe ao certo o que aconteceu. O que se sabe é que foi o filho que a encontrou, na cama com uma seringa no braço.Tudo começou a fazer sentido, a sua preocupação na sexta-feira em saber se devia ou tinha alguma coisa de alguém… e ter levado os recibos os quais permaneciam sempre na empresa...A mesa dela não tinha nada, apenas um retrato dela vestida de noiva no dia
do seu casamento e um livro, “Livro dos Sonhos”, que ela me tinha dado… era a minha colega do lado e a minha amiga.
Apesar das escolhas que fez não posso deixar de dizer que foi uma excelente colega… amiga… e mãe.

1 comentário:

disse...

É triste ver as boas pessoas e amigos irem assim por nada ....
é triste mas é a realidade , bonito post .